Porque São Paulo é a cidade que pára.




Não só São Paulo, mas todas as grandes cidades, possuem problemas de trânsito gravíssimos. A resposta óbvia das "autoridades" é o "excesso de veículos". Como diz Bob Sharp, isso é a mesma coisa que afirmar que o hospital está lotado por excesso de doentes. Ou seja, falta investimento para que nós, os doentes do trânsito, tenhamos mais leitos. Dizer que devemos utilizar transporte público e mandar as pessoas andarem de bicicleta é a coisa mais cretina que eu já ouvi. Primeiro, porque ninguém coloca na minha cabeça que eu devo pagar por dia R$ 6,00 de metrô para ir e voltar do trabalho, sendo, que na distância que moro, gasto pouco mais de 1 litro de gasolina por dia. Nem vou entrar no mérito do conforto de estar dentro de um carro (mesmo com tudo parado). Segundo, que não há ciclovias, e nosso "prefeito" insiste em colocar ciclofaixas ao lado do Parque do Ibirapuera para as pessoas usarem aos finais de semana; como se o parque não fosse suficiente. Não adianta, a matriz de transporte é o automóvel. E nada tem sido feito para melhorar sua utilização. Proibição de caminhões em certos horários não é solução; isso é o mesmo que dar analgésicos a pacientes terminais. A prefeitura está indo na contramão. Assim, listei alguns motivos e soluções pequenas que, combinadas, podem ajudar muito a melhorar o trânsito.
1 - Valetas nas esquinas:
Não sei porque há esse tipo de estrutura aqui em São Paulo. Na cidade dos meus pais, São José dos Campos, não há nenhuma. Não adianta dizer que isso serve para escoar a água, pois galerias pluviais devem cumprir esta função. As valetas retardam o fluxo de veículos, que deve reduzir para não sofrerem danos. Nos cruzamentos com semáforos, isso faz com que poucos carros passem a cada ciclo.
2 - Semáforos sem sincronia:
É de dar raiva. Você olha lá no próximo cruzamento e vê o semáforo verde enquanto o seu está vermelho. Quando o seu abre, o próximo fecha. É simplesmente impossível dizer que há aqui uma "Companhia de Engenharia de Tráfego", pois um erro elementar como esse deveria ser cometido no início da popularização do automóvel (década de 20 do século passado) para nunca mais existir. Parar o carro e fazê-lo se movimentar de novo gasta muito combustível e promove desgaste prematuro de embreagem. Um outro efeito colateral da falta de sincronia são os espertinhos que querem "garantir seu lugar" no próximo quarteirão e fecham o cruzamento.
3 - Ônibus articulados em vias locais:
Quantas vezes você teve que esperar por vários minutos um ônibus fazer uma conversão? Grandes ônibus articulados deveriam rodar apenas nas vias principais, expressas e corredores de ônibus. No meu caminho para casa são incontáveis as esquinas que estes veículos atrapalham, fechando o cruzamento. Há outros ônibus com distância entre-eixos curta que podem realizar o transporte em vias locais.
4 - Faltam grandes avenidas e vias expressas:
Vá até o Google Maps e observe as grandes cidades de países desenvolvidos. Veja como sua estrutura urbana é planejada, com cada bairro tendo sua avenida principal que escoa o fluxo de veículos. Aqui, cada região de São Paulo tem duas ou três avenidas principais (com semáforos e cruzamentos), expressas, pouquíssimas. Se fazem necessárias grandes obras de replanejamento urbano em São Paulo. Claro que as pessoas que tenham seus imóveis desapropriados devem ser indenizadas com valores de mercado, para que possam se mudar para casa ou apartamento equivalente.
5 - Excesso de semáforos de pedestres.
Pronto! Vão me chamar de carrasco. Mas o caso é: por que se colocam semáforos de pedestres sobre estações de Metrô com entrada dos dois lados da via? Não seria melhor estimular o uso das estações para atravessar a rua? Os motoristas devem abrir mão de muitas coisas, como rodar em horários que ficam dentro do famigerado rodízio. Por que os pedestres não? Outra coisa são os semáforos de pedestres em vias importantes. Há um na Rua Vergueiro entre as estações de Metrô Ana Rosa e Paraíso e um em frente à Faculdade Mackenzie na Avenida da Consolação que poderiam facilmente ser substituídos por passarelas. Ah, na Radial Leste há várias passarelas.
6 - Faixas de rolamento estreitas:
Nas Avenidas 23 de Maio e Radial Leste as faixas são estreitas ao extremo. Caminhões de médio porte não conseguem rodar sem invadir as outras duas ao lado. Penso eu que isso foi feito para aumentar a quantidade de veículos nas vias. Porém, caímos em um paradoxo. Faixas mais estreitas exigem atenção redobrada, logo, menor velocidade (não estou defendendo sair voando, apenas velocidade coerente). Se eliminassem uma faixa da Radial, alargando assim as outras (e o corredor de ônibus um pouquinho), os carros poderiam desenvolver mais velocidade, desafogando com mais rapidez o trânsito (a sincronia de semáforos é importante nessa situação) e evitando uma série de pequenos acidentes que possuem um efeito exponencial no trânsito.
7 - Faixas de rolamento mágicas, que se teletransportam ou desaparecem:
Quem passa em frente ao Hospital das Clínicas na Avenida Dr. Arnaldo sentido Lapa e nas ruas do Tatuapé sabe do que estou falando. A cada cruzamento, a mesma avenida recebe uma reconfiguração de faixas que causa uma confusão sem precedentes, motivo para gargalos e pequenos acidentes. Isso sem falar nas inúmeras ruas e avenidas que não possuem NENHUMA sinalização horizontal, o que dificulta até a fiscalização por parte da CET, que deveria multar quem muda de faixa sem dar seta (isso é mais grave que exceder o limite de velocidade).
8 - Radares:
Pronto, o pessoal que acha que o grande problema do trânsito é velocidade vai me crucificar. Mas o fato é que velocidade incoerente com a via e com as condições climáticas são os grandes causadores de acidentes. Motorista bem educado sabe que se retirassem os radares de uma avenida como a 23 de Maio, a velocidade coerente seria de 90 km/h. O que é mais grave, andar a 90 km/h ou a cada radar de 70 km/h termos uma legião de motoristas "sentado o pé no freio" até reduzir a menos de 50 km/h? Pode parecer utópico, mas trânsito é algo que faz parte do dia-a-dia, mesmo que você não tenha carro. Por isso, no ensino médio deveria ter uma matéria só para isso. Seriam 3 anos com o conteúdo que "aprendemos" em 15 dias nas "auto escolas". Formando cidadãos, poderíamos dispensar os radares (que no Brasil são usados só para arrecadação, mas isso é assunto para outro dia). Lombada eletrônica? Só em frente a escolas e hospitais, onde realmente são necessárias.
9 - Tolerância excessiva com motos e bicicletas:
A constituição brasileira diz que todos são iguais perante a lei. Logo, motos deveriam obedecer o Código Nacional de Trânsito e não trafegar entre os carros. Não sei ao certo, mas me parece que isso é permitido ou tolerado (alguém me esclareça por favor). Independentemente disso, andar entre os carros causa conflitos e acidentes que literalmente param São Paulo. E todos sabemos que motociclistas sempre levam a pior em um acidente. Já os ciclistas deveriam entender que não adianta querer enfrentar ônibus, carros etc. É extremamente perigoso. Ciclistas, cobrem do estado Ciclovias, não venham impor sua vontade sobre nós, não temos nada a ver com isso. Se estamos parados no trânsito, como cumpriremos a lei de estar a 1,5 metro de vocês? Andem vocês a essa distância! Quando eu morava no interior, muitas pessoas iam trabalhar de bicicleta porque não tinham dinheiro para carro ou ônibus. Hoje vemos pessoas de classe média alta levada por modismo fazendo malabarismo entre os carros. Na maioria das vezes não precisam ir do ponto A ao ponto B, estão só andando de bicicleta. O que é muito bom. Na minha adolescência, eu andava cerca de 20 km por dia de bicicleta. É um ótimo exercício, mas em São Paulo deve ser feito em parques, não no meio do trânsito. Imaginem se os carros resolvem andar na ciclovia...
10 - Pavimentação deficiente:
Buracos! Sim, buracos! Falta de manutenção em asfalto de má qualidade causa ruas lunáticas, ou seja, com o solo parecido com o de nosso satélite natural. Ruas esburacadas detonam os os carros, diminuem a velocidade do fluxo e causam acidentes. Quem já não teve que escolher entre invadir a faixa contrária ou bater em um buraco?
11 - Falta de planejamento e infraestrutura em locais e datas de grandes eventos:
Seja em shows no estádio do Morumbi, Salão do Automóvel no Anhembi, Parada GLBT, Natal e Reveillon na Avenida Paulista... sempre há problemas que influenciam regiões até longe destes eventos. São Paulo cresceu muito nos últimos anos e sua estrutura para eventos praticamente está inalterada. Este ano estou pensando seriamente em não ir no Salão do automóvel, onde geralmente vou de metrô e taxi. Nem assim está fácil de ir. No último, levei mais de 40 minutos para ir da estação Tietê do Metrô até a entrada do Anhembi. Seria melhor ter ido a pé. A solução seria mudar o local do evento, para alguma cidade vizinha com espaço de sobra. Já a Parada GLBT e eventos de Natal e Reveillon poderiam ir da Paulista para um local menos central, pois esta avenida está praticamente no centro geográfico da cidade. O sambódromo para a parada GLBT seria uma boa pedida, já que é um evento com movimentação de carros alegóricos como o carnaval. Para festas de final de ano, o Parque do Ibirapuera e suas imediações seriam perfeitos. Lembrem-se, na Avenida Paulista há hospitais e residências. Imagine sair com uma ambulância no meio do povo nos shows do Reveillon. Nos dois últimos anos, voltando do almoço de Natal com a família de minha esposa em Ibiúna, enfrentei trânsito desde a Rodovia Raposo Tavares até a Avenida Paulista. Sim, era o mesmo fluxo de veículos, parado por quilômetros porque UMA AVENIDA da cidade estava interditada para os festivos de Natal.
Conclusão:
Nem sempre são necessários muitos recursos e muito tempo para melhorar o trânsito da cidade. A maioria das soluções propostas nos itens desta lista poderiam ser feitas rapidamente com pouco investimento público. A questão é: Por que não são feitas?!
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Autor: Rodrigo Costa

Do ponto A ao ponto B, pensando na vida, no volante e tudo mais.

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